Não, não acho que um dia seremos
todos surdos, porém, com o aumento da expectativa de vida e de outros fatores
de risco, tais como exposição ao barulho e a substâncias ototóxicas, todos nós
estamos mais sujeitos a ter uma perda auditiva progressiva. A perda auditiva
relacionada ao envelhecimento é chamada presbiacusia. Além de fatores ligados ao estilo de vida, como
tabagismo, uso de medicações e consumo de álcool, os fatores genéticos também
são muito importantes.
Diferente de uma perda súbita, ou
de uma perda congênita, ou seja, quando a pessoa já nasce surda, a perda
progressiva é mais dificilmente percebida. Sem se dar conta, a pessoa vai
desenvolvendo alguns mecanismos compensatórios, como a leitura orofacial, por
exemplo. Mesmo assim, é comum que a pessoa comece a ter dificuldades em
acompanhar uma conversa entre várias pessoas ou em um ambiente com mais ruído e
que as situações de comunicação se tornem muito fatigantes, pelo nível de
concentração exigido. Isso pode resultar em um maior isolamento, com a recusa
em participar de situações sociais e uma maior impaciência. Muitas vezes, a
família ou as pessoas próximas entendem isso como um sentimento de depressão ou
como “coisa da idade” e o diagnóstico demora pra ser feito ou nem chega a ser
feito. Outras vezes, a pessoa esconde sua dificuldade em ouvir, tornando a
adaptação de todos ainda mais difícil.
Nos casos de presbiacusia, o uso
de aparelhos auditivos pode ajudar, no entanto, muitas vezes não se tem o
cuidado necessário com a adaptação das próteses. Esse é um processo delicado e
contínuo, que deve acompanhar as variações na perda e as demandas e estilo de
vida de cada usuário. O descuido com a adaptação, por desinformação ou por
dificuldade em dar continuidade ao acompanhamento, faz com que muita gente
desista do uso dos aparelhos por não perceber um ganho concreto.
No entanto, tão ou mais
importante do que o uso dos aparelhos é a atitude da pessoa com a perda e das
pessoas próximas. Algumas coisas simples podem facilitar a comunicação, tais
como: chamar atenção da pessoa, de preferência com um toque ou gesto, quando
for se dirigir a ela; procurar falar de forma mais clara e lenta, olhando
diretamente pra pessoa e sem gritar; certificar-se de que a pessoas entendeu; quando
possível, utilizar meios visuais para reforçar mensagens importantes; privilegiar
situações e locais com menos barulho pra facilitar a interação, e;
principalmente, não desistir de se comunicar.
Embora exista uma grande
diferença entre a presbiacusia e a surdez, todas essas orientações também são
válidas quando estamos conversando com um surdo que faz leitura orofacial. Pensando
bem, por que esperar que nós ou alguém próximo tenha uma perda auditiva pra desenvolvermos
uma postura que facilite o contato entre surdos e ouvintes? Mais uma vez fica
claro que, quando temos uma atitude inclusiva, somos todos nós que saímos
ganhando.
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Foto de arquivo pessoal |
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